Radares por IA começou esse ano
O fim da “freada no radar” marca uma mudança profunda na forma como o trânsito brasileiro passa a ser fiscalizado. Durante muitos anos, a fiscalização eletrônica funcionou de maneira previsível. O motorista reduzia a velocidade ao se aproximar de um radar, passava pelo ponto de controle e acelerava logo em seguida. Essa prática, amplamente difundida, tinha como foco evitar multas e não necessariamente conduzir com segurança ao longo de todo o trajeto.

Com a chegada dos radares inteligentes, esse comportamento começa a perder eficácia. A nova geração de equipamentos utiliza tecnologia Doppler, câmeras de altíssima resolução e Inteligência Artificial, transformando a fiscalização em um processo contínuo e muito mais preciso. O foco deixa de ser apenas um ponto específico da via e passa a ser o comportamento do condutor ao longo do percurso.

O radar Doppler funciona de forma semelhante a um sistema de sonar. Ele emite ondas eletromagnéticas contínuas que permitem medir a velocidade do veículo em movimento com alta precisão. Diferente dos radares tradicionais, que capturam a velocidade em um único ponto, o sistema Doppler consegue acompanhar o veículo por até cem metros de distância. Isso significa que não adianta frear bruscamente em cima do radar e acelerar logo depois, pois o equipamento identifica a velocidade real de aproximação e o padrão de condução.
Outro avanço importante é o fato de esses radares serem não intrusivos. Eles não exigem a instalação de sensores no asfalto, o que reduz custos de manutenção e evita intervenções na pista que costumam gerar congestionamentos. A fiscalização se torna mais eficiente sem comprometer o fluxo do trânsito.

Além do controle de velocidade, os novos radares se tornaram plataformas completas de monitoramento viário. Equipados com Inteligência Artificial e sistemas avançados de visão computacional, eles são capazes de identificar diversas infrações simultaneamente. A tecnologia permite detectar o uso de telefone celular ao volante, a ausência do cinto de segurança, o avanço de sinal vermelho, a parada sobre a faixa de pedestres, conversões proibidas, tráfego na contramão, uso indevido do acostamento, circulação em corredores exclusivos de ônibus e até o descumprimento de rodízio municipal em cidades onde a regra é aplicada.

A Inteligência Artificial analisa imagens em tempo real, cruza padrões de movimento com as regras de trânsito e gera autuações automáticas sempre que identifica uma conduta irregular. O processo reduz a dependência da presença física de agentes e amplia significativamente o alcance da fiscalização.
Outro ponto que representa uma verdadeira mudança de paradigma é o sistema de aferição de velocidade média. Em vez de medir a velocidade em um único ponto, o sistema calcula o tempo que o veículo leva para percorrer um trecho entre dois radares. A placa é registrada no primeiro ponto com horário e, no segundo ponto, o registro é feito novamente. Se o tempo gasto for incompatível com o limite permitido para aquele trecho, fica caracterizada a infração por excesso de velocidade média.
No Brasil, a tecnologia para medição de velocidade média já existe e está instalada em diversos estados, porém a aplicação de multas com base nesse método ainda depende de regulamentação específica do Contran. Em países como a Itália, onde o sistema já é plenamente utilizado, os resultados são expressivos. Após a implementação da fiscalização por velocidade média, o número de mortes no trânsito foi reduzido pela metade.
O impacto dessas tecnologias na segurança viária é significativo. Estudos técnicos apontam que o excesso de velocidade está presente em cerca de vinte e cinco por cento dos acidentes graves. Ao eliminar práticas como acelerações bruscas, freadas repentinas e condução agressiva, os novos radares atuam diretamente na redução da gravidade das colisões e no número de vítimas.
Um exemplo prático dessa estratégia pode ser observado na BR 381. Está prevista a instalação de aproximadamente setenta novos radares fixos até 2026, todos em pontos considerados críticos com base em estudos técnicos e históricos de acidentes. O mapeamento é realizado pela Polícia Rodoviária Federal e os locais são reavaliados periodicamente para garantir que a fiscalização continue sendo necessária e eficiente.

Do ponto de vista legal, a legislação brasileira estabelece que não é obrigatória a instalação de placas indicando a localização exata dos radares. O que é exigido é que a via esteja devidamente sinalizada com o limite de velocidade permitido. Todos os equipamentos passam por processos rigorosos de homologação e controle de qualidade conduzidos pelo Inmetro e pelo Contran.
Essa nova fase da fiscalização representa também uma mudança de mentalidade. Se antes o radar funcionava como um fotógrafo de linha de chegada, hoje ele atua como um observador contínuo do comportamento do motorista. A proposta não é punir um erro isolado, mas estimular uma condução segura e constante durante todo o percurso.

A mensagem final é clara. A tecnologia está pronta, a fiscalização evoluiu e o trânsito brasileiro caminha para um modelo mais inteligente e menos tolerante a comportamentos de risco. Dirigir com segurança deixa de ser uma atitude momentânea e passa a ser uma prática permanente.
